terça-feira, 23 de maio de 2017

Cobre de sino

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Toda dor foi possível suportar, o não-ter e sentir latejar fundo. Também, os olhares perguntando sem perguntar. Exceto o de Alegria, esse doía. Sua presença incomodava. Havia uma tristeza no ar quando ela entrava no quarto, com aquele sorriso que para mim mais parecia  soluço, coisa de amor definhando.

Lembrava do dia em que a conheci, recordava do cheiro da manhã, do domingo, da missa celebrada de fora da igreja em construção. Lembrança dela passando de vestido de organdi, estampado em azul, sapato branco e com o véu já na cabeça. A mãe puxando pelo braço por causa daquele olharzinho que ela me deu. Lembrança do rosto corando e o olhar abaixando.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Aquele sino era o que mais me doía, me enlouqueciam as badaladas, dilacerando por dentro. Como se tivessem cortando meu avesso, dor insuportável e maior ainda com Alegria ali me olhando, disfarçando a tristeza de dentro com sorrisos e afagos nas mãos. Fechava os olhos, fingia dormir. Lembrava de quando a conheci.

Alegria mais Idalina, festa de Nossa Senhora da Abadia, cheiro de pólvora dos foguetes, novena mais demorada, mastro erguido, leilões e meu olhar acompanhando Alegria pedir para o menino Tobias entregar o correio elegante.

 

- Me encontre atrás da igreja.

 

Nem acreditei, emoção correndo no corpo, primeira vez assim. No encontro, Idalina reparando a esquina. Nossos primeiros silêncios, as primeiras palavras. E ali mesmo, tempos depois, minhas mãos entre as suas, também o primeiro beijo, e o compromisso definitivo.

Perdia a noção do tempo, já era madrugada, ela já havia ido embora. E eram as mesmas sensações, a mesma dor. Dor e a ansiedade nos minutos contados até o sino bater de novo.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Era como se tivesse uma chaga dentro do corpo que latejava com o toque. Quando ele parava ia me acalmando e o pensamento voava longe.

 

- O Pedro já é quase um homem, ele dá conta de buscar o sino, seu vigário.

 

Era manhã de finados, lembro do cheiro da paçoca levada na matula, de contar os passos para me distrair no caminho; de Baldino, que me cedeu uma cabaça d’água no meu desprovimento e me ajudou a arrumar o cabeção do carro que soltou numa bacada perto do Inajá. A trabalheira da volta com o sino pesado, forçando a canga de bois, aluindo de lugar em qualquer diferença do caminho.

Lembrança da chegada, minha boca secando no medo de lembrar. E a noção do tempo perdida na dor, o quarto escuro, as badaladas, é agora.

Não era, doía pensar que era. Agora era.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Alegria vinha, não queria. Não queria mais vê-la, não queria mais que aquele sino tocasse, não queria ver ninguém.

Conformação no tempo não achei, repassei todas as lembranças naqueles meses. Não achei sossego em nenhuma. Não ver mais Alegria não aliviou meu sofrimento. O sino continuava tocando todos os dias e era nessa hora que a dor nas pernas rodopiava dentro de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Esperei todos dormirem e fui rastejando até a igreja levando o facão. Foi como tirei a tramela da porta. A escada ficava na boca do alçapão e dava no forro; de lá uma escada menor ia até o campanário. Subi os degraus um a um, sentando-me, de vez em quando, para tomar fôlego, até chegar ao sino. Dor nenhuma sentia nesse esforço. Recolhi a corda, receio de tocar numa distração minha, e fiquei frente a frente com ele.

Era preso no cavalete, bem feito por Joaquim Pirracento, sustentado na parede que apoiava a cumeeira. Fiz dois piques com facão, um em cada lado do cavalete: uma facãozada, um intervalo grande, cadenciado para não acordar o padre.

Enquanto rastejava pela rua na volta, lembrava-me do dia em que cheguei. A festa que foi. Lembrei-me das tentativas de subir o sino para a torre da igreja, de Alegria me falando: Agora podemos marcar o casamento; da teimosia do padre em não esperar Joaquim Pirracento para subir o sino; do cavalete mal feito, que eu mesmo ajudei a fazer, do sino despencando em cima de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Ouvi por sete dias. No oitavo, de madrugada, ele despencou. Fazendo um enorme barulho, caiu na quarta badalada e derrubou todo o telhado da igreja.

No meu canto não sinto mais nenhuma dor, nem tenho a Alegria. Fiquei apenas com o silêncio e a sensação de ainda ter as duas pernas.


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segunda-feira, 22 de maio de 2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Zé da Cabaça


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No embornal, levava a paçoca feita por Didinha na véspera; na mala de saco, traspassada na sela, duas mudas de roupa e, no coração, vontade de chegar logo e ver como era ela. Meu olhar ficava perdido nas patas da mula da frente, como se cada passo deixasse para trás um pedaço.

Distraía tanto no pensar que nem ouvi o urro da onça no Capão de Dentro, terras de Cristino da Barreira. Mas a mulada ouviu e se assustou fazendo trote, desorganizando a comitiva. Bem que o pai tinha avisado para esperar o cometa do Baldino; acompanhar a boiada era mais difícil.

Apesar de as mulas com o rancho estarem na frente da boiada, quando elas se assustaram, o gado ficou nervoso e se dispersou pelo mato afora com o descontrole dos vaqueiros de Tertuliano. Juntar a boiada de novo foi trabalho de um dia; mais de dez novilhos desembestaram para o lado do mato contrário ao urro da onça, na juquira pura, terminando no Ribeirão da Concórdia. E foi lá, no contrário do urro, que achamos, na outra margem, a toca da onça.

Foi só contar, que Zé da Cabaça já começou a se arrumar para a espera, apesar da reclamação de todos, fosse pelo carecer do serviço, fosse pelo perigo. Avaliando o urro, era bicho grande, pelo tamanho da toca, então, assustava mais ainda. Mas Zé da Cabaça não labutava com medo, não. Afamado, tanto na mira como pela paciência; caçador de paca sem igual. Capaz de ficar noite inteira em cima do jirau, à espera. O apelido era por causa da cabaça onde urinava nessas horas, para não deixar cheiro e a caça espantar. Matar uma onça era um ato de respeito que, até hoje, ele não havia feito, e agora não ia desperdiçar uma chance daquelas.

Acompanhou a boiada até meia légua do lugar, esperou organizar o pouso e a noitinha chegar e saiu rumo da toca da onça.

A merenda já estava cheirando quando apareceu Zé da Cabaça, cabeça baixa.

 

- Ela num apariceu, disse. E se ensimesmou no resto da viagem.

 

Chegamos ao curtume já no meio duma manhã de domingo; despedi dos companheiros e na casa do padrinho Delmiro banhei, indo, com ele direto para a casa dela.

Conheci primeiro o pai e a mãe. O café. Ela que fez, disse dona Laura. Depois de muito prosear, falando dos teres e haveres, foi que a chamaram. Era muito formosa, mais que podia ser no meu pensamento.

Pouco mais de mês fiquei no Vai Vem, em compromisso do noivado; marcamos data e tive estrada, levando, dentro, o cheiro dela.

Fui, com o padrinho, até a Forquilha no compromisso dele e, de lá, na passada do Baldino, segui com ele.

O pai tinha razão, com o cometa a viagem demorava menos, apesar do descarrego e carrego das mulas em cada dormida, dos pousos demorados por conta dos negócios de Baldino.

Na passagem pelo Capão de Dentro, avistamos ao longe um homem entrando nos matos; quando chegamos perto, era Zé da Cabaça lidando com o almoço. Seis codornas, já assando, pareciam nos esperar.

 

- Suzinho no mundo, seu Zé da Cabaça. Falou Baldino.

 

- Tô na labuta cum onça, seu Baldino.

 

E contou que já fazia mês que estava à espera da onça; passava a noite em cima do jirau e nada da bicha. De dia, distanciava para  o cheiro não acusar. Não a viu  nesse tempo todo, mas as marcas do rastro estavam por todo lado. Já tinha estudado o terreno por onde ela chegava;  tinha entrado na toca muitas vezes para ficar com o cheiro dela. Não tomava banho, só passava as folhas do mato no corpo para não recender cheiro de gente. E nada da onça. Mas que ela estava por perto, ele tinha certeza.

Seu Baldino ria muito e falava para o Zé da Cabaça:

 

- Onça é bicho tinhoso. Ela já sabe que ocê tá tocaiano ela, ela óia mais procê do que ocê prá ela. Ela sabe mais docê que ocê dela. É no dia que ela tá drumino, inganano o amigo.

 

- Deveras seu Baldino?

 

Seguimos viagem, deixando ele resolvido tapear a onça; pondo sentido no de dia e no de noite.

Didinha fez paçoca, almôndega, farofa, piou na vara muitas galinhas e mais um-sem tanto de matula. E dessa vez toda a família, mais dois vaqueiros, num todo de vinte bocas para comer as gostosuras de Didinha, caminho afora. E meu coração querendo chegar logo, saudades dela, cheiro dela cheirando em mim.

Chegando ao Capão de Dentro, quando eu contava ao pai a história do Zé da Cabaça com a onça, o cheiro de perdiz assada, denunciou: era ele.

 

- Seu minino, como vai? Inda num topei cum ela.

 

Quase ano ficou Zé da Cabaça ali, à espera da onça. Até roça ele fez, distância de quarta de légua da toca, com a permissão de Cristino da Barreira.

 

- Seu Baldino tava certo, ela vai no igual que i’eu. Já tive de testa cum ela muitas veiz; quando faço a mira, ela some. Tamém ela quase me cumeu, mas o gaio quebrô e dotra veiz i’eu pulei no corgo e nadei nus debaxo.

 

O tempo passou. Meu mais novo já ia fazer sete anos, quando passei no Capão de Dentro de novo, conduzindo uma boiada, já com minha própria comitiva. Quando lembrei do Zé da Cabaça, toquei o berrante como marcando o lembrar. Senti o cheiro do assado no ar. Era ele mesmo, Zé da Cabaça, ali, no mesmo lugar, com duas codornas e uma perdiz já no ponto de comer.

 

- Seu minino, cumo vai?

 

- Vou bem seu Zé. E a onça, já matou?

 

- Inda não, meu fio. Mais já tá marcada de chumbo. I’eu das unha dela.

 

Abriu a camisa mostrando a cicatriz das garras da onça.

 

- I’eu num mato ela e ela num mata i’eu; custumamo e vamo seguino a lida.

 

 

 
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terça-feira, 16 de maio de 2017